Uma mala de futilidades

Posted sábado, 1 de junho de 2013 by Francelle Machado
Cinco horas da tarde. Ela sai de casa. Quer respirar o ar novo e poluído da cidade grande. Desde que deixou a casa dos pais há dois anos atrás, ainda não observara o pôr-do-sol mesmo dando de cara com ele na janela de seu quarto todos os dias. A rotina de socialite a tomava todo o tempo, e a preocupação sobre onde seria o ensaio de fotos para uma tal grife a deixava louca...
Decidiu mudar de cidade pra mudar de vida, renovar expectativas, buscar um norte. Esqueceu apenas que sua futilidade veio junto com as malas, sem que ninguém quisesse extraviá-la no caminho. Prometeu aos pais voltar ao interior para buscá-los, mas preferiu manter a privacidade de viver com o namorado. Até porque o pai e a mãe estavam velhos, pra que iriam querer morar naquela loucura que era a capital?
Ela definitivamente se encontrou na cidade nova: tem muitos shoppings pra aliviar o vazio em compras, muita gente que se cumprimenta sem se conhecer de verdade, muitos bares onde pode ir com seu vestido justinho ao corpo e atrair olhares, a fazendo se sentir necessária a alguém por pelo menos um minuto.  Tudo é perfeito, mas ela não esquece a ligação que recebera 5 minutos antes de trancar a porta e se perder pelos caminhos da cidade. Como ele podia trocá-la assim? E aquela garotinha sem sal ainda nem sabia andar em saltos finos, que vergonha. Como ele apresentaria um estrupício daquele em uma das festas de sábado à noite que costumava ir? 
Chorar, pra quê? Borra a maquiagem e não traz ninguém de volta. Talvez se ela fosse em uma daquelas cartomantes...aaahhh, esquece. Ele já falou categoricamente que não aguentava sua futilidade, e ela nunca iria se desfazer dos pares de brincos caríssimos que um amigo - "apenas amigo" - havia lhe dado três dias antes.
Talvez tenha sido melhor assim, ela pensava. Namorados vêm e vão, mas jóias e uma vida como a que ela tinha eram difíceis de conseguir. Pra quê investir em sentimentos quando se pode investir em coisas palpáveis, que não arriscamos perder tão fácil? 
Em meio a uma pilha de conclusões precipitadas, algo a desconcentra de seus pensamentos. Alguém puxava sua camisa recém passada:
- Moça, você é a mulher da propaganda do shopping?
- Sim, sou eu. Porque, quer autógrafo? - Diz impaciente.
- Não, é que a minha mãe sempre diz que queria ser bonita como a garota da propaganda, mas o meu pai sempre diz que a mamãe tem mais valores que a outra mulher, e isso é muito melhor...já que te encontrei aqui, queria te perguntar: o que é ter valores?

9 comentários :

  1. Dayane

    Adorei demais o texto, tem muitas pessoas que pensam tanto na material que acaba esquecendo da essência do ser humano que são os sentimentos.
    Beijinhos
    Facebook do blog
    conversando-com-a-lua.blogspot.com.br

  1. Carla .V

    Adorei o texto!!Muito bom!!Mostra a realidade!!Vc escreve muito bem!!!Parabens!!

    Bjs da sua fã

  1. Cássia Vicentin

    Gostei bastante do texto, refletiu uma cena que, mais cedo ou mais tarde, todos vão vivenciar ;)

    www.procurei-em-sonhos.com

  1. Priscila Ferreira

    Que texto lindo, muito bem escrito.

    http://senhoritapriscila.blogspot.com
    Curti a fan page? (www)
    @priscilafrr,
    beijo.

  1. Ela Oliveira

    Oi,
    Parabéns pelo texto!E realmente existem muitas pessoas que não sabem o que é ter valores na vida!

    Páginas Em Preto

    Beijos

  1. Thami

    Amei o texto! Sério! Você escreve muito bem e me fez refletir sobre o que é valor de verdade, afinal tem muita gente que confunde valor material com outro tipo de valor né?

    Xx
    www.likeparadise.com.br

  1. Caroline Ferraz

    Gente o.o
    Não esperava esse final, e ficou muito lindo! Combinou certinho. Você escreve super bem Fran, devia apostar nesse ramo, não só no jornalismo. Eu comprarei seus livros >.<

    Att, Line
    putmerd.blogspot.com

  1. Bruna

    Olá
    Você escreve super bem, texto ótimo para refletir.
    Beijos

    cocacolaecupcake.blogspot.com.br

  1. MahPessoa

    Adorei, adorei, adorei seu texto! Acho que ela perdeu a humildade, a simplicidade. se tornou uma pessoa esnobe e egoísta. Adorei o final, foi tipo, impactante! ficou muito bem feito!
    Adoro seus textos, Fran! sou tua fã!

    TRASH ROCK

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